Sampa, uma cidade de paisagens multifacetadas, por Maria Célia Lima-Hernandes (São Paulo)

São Paulo é uma grande cidade homônima ao Estado. Ao longo do século XX, devido a migrações intensas, os bairros foram crescendo para as bordas, o que significa dizer que vários dialetos brasileiros foram se encontrando nessas áreas periféricas. Os nordestinos (Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe) e os nortistas (especialmente, do Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia e Roraima) foram trazendo um modus vivendi diferente para a, então, fria cidade, por meio da culinária e das festas típicas, fazendo com que o povo paulistano fosse incorporando algumas palavras ao seu linguajar. Além dessa dinâmica interna brasileira, há grande imigração ao longo do século XX, em que ingressam japoneses, italianos, moçambicanos, guineenses, bolivianos, chilenos, árabes, alemães, espanhóis, galegos, chineses, lituanos, libaneses, dentre muitos outros povos. A despeito dessa aquarela de perfis étnicos tão variados, alguns grupos mantiveram-se por várias gerações sem qualquer miscigenação. Conseguíamos, até bem pouco tempo, relacionar regiões paulistanas a grupos migratórios. É o que vemos com o bairro da Liberdade, em que desde o século XX, há uma grande população japonesa, a despeito de ter sido reduto negro desde o século XVIII. E embora paulistanos digam que é bairro japonês, outras ondas imigratórias asiáticas, como a coreana e a chinesa, foram camaleonicamente tomando os lugares daqueles. A mais tradicional festa do Ano Novo Chinês ocorre ao lado da Praça da Liberdade. Passeando pelas ruas da Liberdade, ainda hoje, vivenciamos muitos sons e tons diferentes, línguas de casa circulando pelas ruas paulistanas.

Se queríamos negociar com judeus, é certo que os encontraríamos no Bom Retiro, bairro que, no século XIX, era composto por chácaras e sítios. E, hoje, mal encontramos praças arborizadas. Prédios amontoam-se por ali. Ao longo do século XX, gregos, lituanos, coreanos foram se alojando por lá. O melhor restaurante grego que conheci fica na rua da Graça, embora não mais tenhamos danças com quebra de pratos, nem esteja mais lá o genitor que tudo isso construiu. É nesse bairro em que comemos a bureka, típica da Bósnia, e que sobreviveu a muitas camadas imigratórias de comerciantes portugueses, turcos, sírios e libaneses com lojas de tecidos e roupas.

Hoje, chineses são os comerciantes locais, com placas escritas em mandarim. Há também escolas chinesas para as crianças. Não se vê nesses grupos qualquer miscigenação. É de fato uma aquarela, com suas cores separadas por um obstáculo, representado, muitas vezes, por uma parede de apartamento apenas. Há lugares que apresentam dois topônimos convivendo: um de conhecimento geral dos que circulam ao redor e outro oficial atribuído pela Prefeitura. São Paulo é uma cidade fantástica, mesmo que não tenhamos falado dos tantos outros bairros, das tantas outras comunidades, das tantas outras línguas e se cruzam nas ruas paulistanas.

Maria Célia Lima-Hernandes (11.06. 2020), Universidade de São Paulo, Brasil

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